{Provocando debate} Será o fim das livrarias?

Trancrição de um trecho da fala de Mileide Flores durante  participação na 19ª Convenção Nacional de Livrarias:

 “As Livrarias são um fenômeno institucional complexo, com missão complexa e de grande fragilidade. Não existimos apenas para espelhar as fragilidades de uma política social carente de mudanças, não existimos apenas para revelar as condições precárias de comercializar livros em um país de baixa renda e de renda mal distribuída, de um país cheio de analfabetos e de alfabetizados funcionais, sem elite ilustrada, e sem crenças arraigadas na revelação do livro. 
 
Não podemos ser interessantes apenas a nós mesmos ou aos poetas que com ironia ferina ou admiração manifesta, sempre nos colocaram a par com as musas. Gregório de Matos, no século XVII, em A um livreiro que havia comido um canteiro de alfaces com vinagre, polemiza as habilidades de sobrevivência dos livreiros da seguinte forma:
“Levou um livreiro a dente / de alface todo o canteiro / e comeu, sendo livreiro / desencadernadamente / Porém, eu digo que mente / a quem disso o quer taxar / antes é para notar / que trabalhou como mouro / pois meter folhas no couro / também é encadernar”
 Carlos Drummond de Andrade, em Espaço Livraria, no século XX, fala dos poderes de salvação e de perdição da livraria:
 “Primeira livraria, Rua da Bahia / A Carne de Jesus, por Almáquio Diniz / não leiam! obra excomungada pela igreja / rutila no aquário da vitrina / terror visual na tarde de domingo / Um dia, quando? / vou entrar naquela casa / vou comprar / um livro mais terrível que o de Almáquio / nele me perder – e me encontrar”
 
Por isso, é fato dizer, sem medo da repetição de que sem envolver as livrarias nas compras governamentais e, sobretudo, sem resolver a falha fundamental da baixa escolaridade e da baixa renda nacional, o Brasil continuará sendo, paradoxalmente, um ótimo produtor e um péssimo consumidor de livros. Assim, o efeito-demonstração e o efeito-vitrine, realmente motivador, que bienais e feiras de livros apresentam, não surtirão os efeitos esperados de uma democratização do livro, útil como cultura, como direito e como negócio. As livrarias têm que ser percebidas como parceiras estratégicas das políticas públicas destinadas a qualificar nossos processos civilizatórios”

Segunda-feira, 17/1/2011
Querem acabar com as livrarias
Noah Mera 
Que vivemos em um país que lê muito pouco é consenso, e a solução para este problema, todos sabemos, é educação. A melhor política possível de democratização da leitura é melhorar principalmente nosso ensino fundamental, capacitando professores e investindo em bibliotecas. Até agora não disse nada de mais, não é mesmo? Qualquer pessoa que tenha tido a sorte de ter acesso a um mínimo de escolaridade sabe que a solução passa por estes passos (simples de observar e apontar, mas um desafio enorme para executar em um país como o nosso…).

Qualquer pessoa também sabe da triste situação da escola pública brasileira. E muitos de nós fomos até mesmo traumatizados durante a idade escolar por professores e programas incapazes de despertar o verdadeiro gosto pela leitura nos alunos (claro que há o fator cultural, são poucos os leitores que conheço que não vêm de famílias onde pelo menos um parente próximo cultivasse o hábito).

Apesar do exposto, o mercado livreiro fervilha de alguns anos para cá (se não em vendas, pelo menos em lançamentos). Feiras, bienais, prêmios e festas literárias pululam aos quatro cantos do país, novas editoras e autores surgem todos os dias. Não fosse o conhecimento comum da situação sobre a qual discorri nos dois primeiros parágrafos, poderíamos supor que jorra dinheiro no mercado literário brasileiro. Triste ilusão.

Grande parte dos títulos são lançados por editoras pequenas, com tiragens muito reduzidas e grande risco de pouco retorno do investimento. Sem contar que vários desses livros contam com a participação do autor no financiamento das tiragens.

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Clipping [Projeto proíbe livrarias de privilegiar exposição de best-sellers, Câmara dos Deputados, 29/12/2011]

Diógenes Santos
Andrada diz que as livrarias não podem se orientar por preferências pessoais.

Tramita na Câmara o Projeto de Lei 7913/10, que obriga livrarias e pontos de venda de livros a comercializar todas as obras enviadas a eles. Caso o comerciante se oponha a vender, deverá comunicar os motivos por escrito ao autor ou editor, que poderá apresentar recurso à Câmara Brasileira do Livro ou às câmaras estaduais.

A proposta pretende garantir a “livre circulação de livros no País”. Na opinião do autor, deputado Bonifácio de  Andrada (PSDB-MG), “livrarias não podem ficar submetidas ao jogo econômico e às preferências pessoais”.

Segundo o deputado, é comum as grandes editoras e distribuidoras contarem com livrarias próprias. “Isso resulta na impossibilidade de autores de menor capacidade financeira colocarem à venda sua obras, que, em certo casos, representam importante contribuição à vida cultural do País”, diz.

A proposta também define toda livraria como “núcleo cultural de importância social protegida pelo poder público”. As livrarias, para o autor do projeto, “não são meras casas comerciais, mas locais de transmissão e circulação de ideias e produtos intelectuais de interesse da cultura nacional”.

Tramitação
O projeto tramita em caráter conclusivoRito de tramitação pelo qual o projeto não precisa ser votado pelo Plenário, apenas pelas comissões designadas para analisá-lo. O projeto perderá esse caráter em duas situações: – se houver parecer divergente entre as comissões (rejeição por uma, aprovação por outra); – se, depois de aprovado ou rejeitado pelas comissões, houver recurso contra esse rito assinado por 51 deputados (10% do total). Nos dois casos, o projeto precisará ser votado pelo Plenário. e será analisado pelas comissões de Educação e Cultura; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Íntegra da proposta:

Reportagem – Maria Neves
Edição – Daniella Cronemberger

Clipping [Pontofrio.com.br vende didáticos, Publish News, 20/01/2011 ]

Pontofrio.com.br vende didáticos

PublishNews – 20/01/2011 – Redação

O frete é grátis para compras acima de R$ 49 e quem tem o cartão da loja pode parcelar em até 15 vezes

E a livraria do Ponto Frio está a mil. Quatro meses depois de começar a vender livro digital, a grande novidade de 2010, a loja virtual fez uma parceria com algumas editoras e incluiu didáticos em seu catálogo. O frete é gratuito para compras acima de R$ 49 e quem tem o cartão Ponto Frio pode parcelar a compra em até 15 vezes sem juros. Confira.
Comentário dos editores do Blog: 
Essa notícia alimenta  o debate de para quê servem as livrarias????

Edital de apoio a pequenas e médias livrarias está no ar

Pequenas e médias livrarias já podem acessar o Edital Procultura para Programação Cultural de Livrarias aqui. No final de outubro, o Ministério da Cultura anunciou que vai destinar R$ 3 milhões para o desenvolvimento de 100 projetos voltados à promoção do livro, leitura e literatura, pelo período mínimo de 12 meses. Este edital contempla o Eixo 4 do Plano Nacional de Livro e Leitura (PNLL), de 2006, voltado ao desenvolvimento da economia do livro.
Fonte: Via PublishNews – 10/11/2010 – Por Redação
A  Associação Nacional de Livrarias, a Rede Nordeste do Livro e da Leitura e o Sindilivros estavam no II Fórum da Rede Nordeste, em Salvador 2009, e na 19a Convenção Nacional de Livrarias quando o MinC assumiu estudar de como poderia as pequenas e médias livrarias do pais serem inseridas nos projetos de políticas públicas do ministério para transformar o Brasil em um país de leitores. Por entender que a ação da Livraria vai além do econômico o MinC lançou este edital.

LIBRE divulga: Carta aberta aos futuros deputados, senadores, governadores. E ao futuro presidente


Esta carta expressa a posição dos editores independentes brasileiros, organizados em torno da Liga Brasileira de Editoras.

Dentro do catálogo das nossas editoras, temos alguns livros bastante conhecidos, os que normalmente são chamados pelos jornais de best-sellers. Não nos afirmamos, porém, por meio deles. Nossa contribuição está na diversidade, e é com a arma da bibliodiversidade que enfrentamos as mais difíceis condições que o mercado nos impõe.

O mercado do livro passa no momento por uma profunda transformação, impulsionado pelo próprio movimento do capital, mas também pelas novas tecnologias, que ameaça essa bibliodiversidade. Por isso, acreditamos que, num país cada vez mais educado e com novos potenciais de desenvolvimento, é nosso dever apontar caminhos a trilhar para a manutenção, a sobrevivência e, especialmente, a democratização do conhecimento e da arte que dependem dessa bibliodiversidade.

A cadeia do livro é parte fundamental deste processo. E engloba não apenas os autores, os produtores (editores, tradutores, revisores, designers e ilustradores, entre tantas outras profissões), como também os distribuidores e livreiros.

É uma cadeia complexa e desigual, em que pequenos produtores competem inclusive com multinacionais ligadas a grandes grupos econômicos – que, pelo porte, estrutura e necessidade de altas margens de lucro, pressionam pela pasteurização da cultura.

Diante disso, a Libre defende que o futuro governo, a ser empossado em 1º de janeiro de 2010, deve atuar firmemente na direção de incentivar a bibliodiversidade por meio da edição independente, o que se traduz em:

a)      Uma nova regulação do mercado editorial e livreiro, com a adoção de medidas que protejam e incentivem a abertura, o fortalecimento e a profissionalização de pequenas editoras e, especialmente, pequenas livrarias pelo país.

b)      Estabelecimento de cotas mínimas para pequenas e médias editoras em todas as compras governamentais de livros, que devem ser pautadas pela qualidade e avaliação justa das obras. A mais recente compra de livro do Programa Nacional Biblioteca na Escola ilustra como o governo tem dificuldades para comprar das editoras independentes. Num mercado com centenas, talvez milhares de empresas, oito grupos ficaram com 54% dos títulos selecionados, muitas vezes engordando suas cotas utilizando-se de empresas de fachada.

c)      Fortalecimento da rede de bibliotecas públicas, que devem ter verbas suficientes para a manutenção de uma política de compra, atualização e manutenção de seus acervos, seguindo os critérios de cotas e respeitando as características culturais regionais. O governo também deve fazer cumprir as regras relativas à existência e manutenção de bibliotecas em escolas e faculdades  particulares, que devem ser abertas também ao público em geral. Bibliotecas públicas e privadas são bens públicos.

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