Reproduzimos aqui artigo de Graça Ramos publicado no O Globo, em 04.08.2015, às 13h37min.

Réquiem à professora

Graça Ramos
04.08.2015 13h37m

481_441-capaO Brasil perdeu hoje Ligia Cademartori, uma de nossas maiores autoridades em literatura infantojuvenil, autora de inúmeros estudos e livros sobre o tema. Professora-doutora em Teoria Literária, também tradutora de autores clássicos, ela foi uma das responsáveis pela implantação e coordenação do Programa Nacional Salas de leitura, gérmen do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Após batalha curta e intensa contra um câncer, Ligia partiu para o local que “nem o Arquiteto/Pode ser que o comprove”, como diz o verso de sua poeta preferida, Emily Dickinson.

Autora de livros essenciais na área, como “O que é literatura infantil” (Brasiliense, 1986), Ligia, juntamente com Regina Zilberman e Marisa Lajolo formava o trio acadêmico que, a partir dos anos 1980, definiu muitos dos rumos teóricos que sustentam a literatura infantojuvenil brasileira, dando-lhe alicerce para que se tornasse potente e importante. As três estudiosas permanecem referências importantes e atualizadas atesta o recém-veiculado “Dossiê sobre Literatura e Infância”, publicado no número 46 da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, organizado por Anderson da Mata e Mirian Zappone. São as teóricas brasileiras mais apontadas pelos autores dos ensaios.

Ligia foi professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e da Universidade de Brasília (UnB), onde tive a honra de ser sua aluna e o privilégio de por ela ser orientada no Mestrado em Literatura Brasileira. Tempo em que conheci o amalgama de rigor e ternura que a caracterizavam e aprendi muito sobre imagem poética em cursos inesquecíveis. Gaúcha de Santana do Livramento, ela veio para Brasília em 1984 para trabalhar no Ministério da Educação e, posteriormente, na UnB, onde se aposentou. Era casada com o latinista Francisco Balthar e deixou dois filhos, Mario e Tina, que lhe deram dois netos, Demétrio e Carolina.

Nos últimos anos, paralelamente aos ensaios que publicava, dedicou-se à tradução e à adaptação de clássicos para a editora FTD, entre eles, “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, “Dom Quixote”, de Cervantes – uma das mais divertidas e inteligentes adaptações que já li – e “Jardim de versos”, de Robert Louis Stevenson, sobre o qual passou meses buscando a melhor melodia para cada um dos versos em trabalho de ourivesaria rítmica. O esmero com que cuidava das traduções levou-a a ingressar na Lista de Honra do International Board on Books for Young People, sediado na Suíça, pela tradução de Charles Dickens e Wilkie Collins (1991).

Muitas de suas reflexões sobre o mundo da literatura para crianças e jovens podem ser encontradas em “O professor e a literatura – para pequenos, médios e grandes” (Autêntica), em que a partir de cenas da literatura infantil, sua vivência de leitora cultuada coloca-se generosamente a serviço de outros professores. Na modulação de uma conversa, sem marcas de arrogância, mas carregada de grandes doses de conhecimento e também de comentários vivos sobre a atualidade, ela apresenta e discute elementos da literatura infantil clássica e contemporânea, discorre sobre a literatura juvenil, discute questões importantes para a formação de novos leitores e analisa modalidades diferentes da poesia destinada aos mais jovens. O livro ganhou o prêmio Cecília Meireles da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, de melhor livro teórico em 2010.

Fora do âmbito da literatura infantojuvenil, que costumava dizer ser a sua causa e eu brincava que era a sua casa, Ligia dedicava-se ao estudo da psicanálise. Publicou com Américo Vallejo, “Lacan – operadores da leitura” (Perspectiva, 1981), roteiro à moda de dicionário sobre os principais termos utilizados pelo psicanalista francês. E, em uma incursão às artes plásticas, escreveu um dos mais poéticos textos sobre a arte de Athos Bulcão, artista
plástico radicado em Brasília que estabeleceu forte vínculo com a cidade modernista. Foi publicado pela Coleção Brasilienses, da qual fazia parte do conselho editorial.

De perfil discreto, avessa à exposição pública, levei muito tempo para convencê-la a dar a conhecer os poemas que escrevia. “São íntimos”, dizia-me. Final do ano passado, quando ainda não sabia do diagnóstico fatal, ela se autorizou a ser publicada. Lançado há três meses, “O tempo é sempre” recebeu delicada edição de Jorge Viveiros de Castro, da 7Letras, e prefácio de Adalberto Müller, professor da Universidade Federal Fluminense, também ex-aluno. Ofereço-lhes o meu preferido, intitulado “Espera”: “Entre o foi e o virá,/ presa apenas pelos nós,/ a espera é menos promessa/ que vazio, falta, lacuna,/ rasgo no tempo, rasura/ onde acena o imaginário,/ lá da cena originária,/ onde palavra não há”.

Há alguns dias, nos despedimos. Havia muita dor – física e emocional –. Mas conseguimos cantar baixinho “Parabéns pra você” – afinal era dia de aniversário. E ela ainda me lembrou do pequeno poema de Marina Colasanti, endereçado às infâncias: “A morte é onde a vida põe um ponto./ Um ponto/ de partida”. Que permaneçam os efeitos de sua alegria, do seu olhar debochado sobre o pretensioso, do seu amor à literatura para pequenos, médios e grandes.

(Fonte: OGLOBO)
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Um comentário em “O ponto, de partida, de Ligia Cademartori

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