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Todos que fazemos o Fórum de Literatura, Livro e Leitura do Estado do Ceará nos solidarizamos, em razão de seu passamento, com a família de José Maria Barros Pinho (25/05/1939 – 28/04/2012), poeta e político que entre nós semeou tantas esperanças com sonhos coletivos em favor da democracia, da cidadania plena.e da Cultura Nordestina.

Obrigado por tudo, poeta, temos a certeza de que Deus te acolhe em festivo sarau. Que a alegria de tua presença por lá acalente a tristeza de tua ausência por cá. Cuidaremos, num gesto de respeito e amor, para que estejas sempre entre nós em ideias, exemplo e arte, pois quando se morre é só o corpo que parte, o poeta “sacramenta o eterno no efêmero do homem”.

“ O homem precisa de lucidez para garantir a fantasia do sonho do poeta. Ninguém é poeta sem o sonho e sem o mistério”. (Barros Pinho)

a liturgia do sertão no natal da espera

Barros Pinho

no Natal se dizem coisas diferentes

e a palavra tem sabor de oração

o curso lento dos riachos

se envolve afoito

na volúpia das águas

o canto das aves se faz

em salmo bíblico

na cortina das coisas

a jurema é o pinheiro do sertão

no sol de fogo da caatinga

o aboio do vaqueiro

tem o som da harpa de Davi

no templo azul ao fim da tarde

as crianças dançam a pureza

ao sopro da flauta de vento

no ombro das estrelas

o luar tece uma renda de luz

no ninho de palha

no ventre da mulher

as serpentes recolhem veneno

para alimentar

a insensatez da hipocrisia

nas capelas à beira das estradas

os sinos batem /batem

na noite do campo

na manhã

um concerto de pássaros

reúne violinos

ao compasso da viola

no espelho da sala

da casa de ontem

o retrato dos mortos

salta no rosto da memória

no curral rezam os bois

como anjos solenes

com o olhar no pasto branco do céu

erecto sobre o tempo

o juazeiro espreita a chuva

no evangelho viçoso do verde

as abelhas

na elegância da doçura

espantam a amargura

tecendo labirinto de mel

o Nazareno que acaba de chegar

tem olhos de vaga-lume

que afugenta a treva da terra

o rio Punaré

no passo do gado

cada vez mais próximo de mim

na solidão

Agora

na fazenda São José

a epifania das árvores

celebra a criação

no regaço do mistério

a eucaristia das pedras

na liturgia da espera

é um fio de ouro

no algodão da aurora.

No Natal

o orvalho divino

sacramenta o eterno

no efêmero do homem


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Um comentário em “Barros Pinho: “No Ceará planta-se no sonho e colhe-se na esperança.”

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