O som vem de antes dos humanos, estava na natureza desde sempre. A combinação de elementos sonoros, embora fazendo parte da força ativa do mundo invisível, precisou, por sua vez, ser aprimorada até se tornar música. Não conformada apenas com o sentir, a inteligência humana quis dizer e inventou a palavra, feita de som e significado. Nas matas, o som do vento é fenômeno natural, mas enquanto desconhecido pelas pessoas, assusta e vira substantivo, duende, saci… Em si, a velocidade do som depende do ambiente, ao passo que, na mente, a velocidade dos significados depende do saber e do conhecimento.

Em uma perspectiva histórica podemos encontrar a fala dos sons e os sons da fala tornando-se instrumentos para atrair, para espantar e para afagar; aproximando-se em manifestações de espiritualidade, nas comemorações pela vitória na caça e na guerra; e ganhando força estética em cantação de contos, na poesia e na narração com música, em rodas cantadas, dançadas e declamadas. Do universo das relações sensoriais surgiu a composição musical e do universo das redescrições da realidade nasceu a literatura; ambas partilhando da mesma matéria-prima: os sons e seus intervalos.

Quando juntas, a música e a literatura ganham força para chamar o humano pelos sentidos e suas sensações; pela mente e suas criações; pela alma e seus mistérios. Movido por essa compreensão e consciente da urgência desse tema no debate sobre a infância farei, no final da tarde de hoje, no auditório do hotel Oásis Atlântico, em Fortaleza, a conferência-recital “Cantar com Palavras – a brincadeira da literatura com a música”, dentro do Seminário sobre Políticas Públicas para as Crianças, realizado pelo Instituto Stela Naspolini, para a qual contarei com a participação especial do multiartista Orlângelo Leal, na apresentação de vinhetas e ilustrações musicais.

No mundo de signos em diversão, constituído pela coexistência das particularidades dessas duas linguagens, é o ouvir e o não ouvir que constrói o ouvir-se. Brincando no seu tempo interior, por onde passeiam a consciência das coisas e seus nexos emotivos, a criança estabelece vínculos entre o som de dentro das palavras e o som de dentro dos significados para sentir, pensar, refletir e produzir narrativas. E toda história tem trilha sonora, cadência, ruídos e efeitos de sons reais e imaginários, que a compõem na dinâmica das necessidades, dos desejos e das expectativas do indivíduo em seu mundo circundante.

O ato literomusical dá vazão à liberdade do si, contribuindo para evidenciar os significados dos intervalos como fonte de reações sensíveis, respeitando a unidade de medida de cada pessoa e seus efeitos particularizados, de modo a possibilitar uma partida do tempo interior para a formação do ser crítico e criativo no tempo coletivo. Isso ocorre quando música e literatura se juntam em métrica e em sílabas, articulando o idioma da infância, que é o brincar, para a brincadeira do cantar com palavras, na matemática do prazer estético, da satisfação social, do calor da afetividade e do sentimento de recriação da vida e de encantamento do cotidiano. Fonte: Diário do Nordeste

Destaco a poesia, como uma linguagem que está situada entre a literatura e a música, mas não é uma nem outra. Declamada, cantada, recitada, entoada, falada ou mentalizada, a poesia tem estrutura própria de construção, entonação, velocidade, pausas e intensidade rítmica. Da concisão do haicai à visualidade concretista, ela é feita essencialmente de palavras, mas não é literatura, e tem fervorosas propriedades sonoras, mas não é música. Na brincadeira da literatura com a música a poesia dá uma mão às palavras e a outra às notas e sai andando e dançando entre frases e acordes.

Cantar com palavras, como toda ação de ludicidade, é uma atividade que acontece em dois andamentos: um, na noção de brincar, onde não há regras fixas, prevalecendo, portanto, a espontaneidade; e o outro, na noção de jogo, em que parte da diversão tem regras preestabelecidas, em conjunção com espaços de inventividade. Brincadeira é jogo de cultura e jogo é brincadeira de educação. O que as coisas querem dizer, está na fala das significações da mudez da escrita, assim como o estado de espírito está na voz da emotividade do canto imaginado.

Estar em situação simbólica do brincar e do jogar é estar em movimento pelos campos de descobertas e simulações, sempre acompanhado por algo imaginado, pela fala e pelo canto mudo dos brinquedos, recriando o que está presente e o que está ausente no tempo e no espaço, no real e na fantasia. Entretanto, a literatura e a música estão perdendo lugar na vida das crianças. É muito livro para o “público mirim” e pouca literatura honesta; muito mp3 e muitos shows “para os pequenos” e pouca música de qualidade. E a infância tem seu tempo interior devassado preponderantemente por interesses que não os de dar oportunidades exequíveis para meninas e meninos crescerem livres do “falso self”, da falsificação do “Eu”, decorrente da ideologia do consumismo.

Os estudos do psicanalista inglês, Donald Woods Winnicott, sobre fenômenos transicionais, trabalham a complexidade e a significância dos estágios primitivos da relação de objeto e da formação de símbolos e deduz que “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)” (WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975, p. 80). Essa noção winnicotiana do uso do objeto como uma fonte externa reconhecível para além da própria ilusão tem um paralelo na conexão do cantar e do falar, enquanto manifestações contínuas à respiração, ao mamar e ao balbuciar.

No processo de descoberta do eu (self), como alicerce da criatividade no tempo interior, a brincadeira da literatura com a música é fundamental, sobretudo quando a discussão está centrada “nas relações da criança com o fazer artístico”, como estabelecido no eixo temático “O direito é fazer arte”, do Seminário de Políticas Públicas para as Crianças. O direito é brincar, sim, é esconde-esconde, gangorra, é dar cambalhotas… O direito é brinquedo, sim, boneca, bola, é vai-vem… O direito também é cantar com palavras, sim… É ter mais e mais espaços de vivência para fruição das metáforas, do nonsense, do repertório comum da memória coletiva, dos sons e dos sentidos do viver.

A potencialização e a multiplicação de equipamentos de cultura e educação, preferencialmente quando em logradouros públicos, a exemplo de algumas brinquedotecas do programa “O Ceará Cresce Brincando”, avizinha o canto do conto e reforça os ideais de planejamento pedagógico comunitário, de forma que a criança possa seguir vendo o mundo sempre como uma novidade. Nada que alguns projetos de desenvolvimento com sustentabilidade não possam resolver, em nome da aprendizagem, da criatividade, do pensamento associativo e da estabilidade social.

Neste aspecto, a brincadeira da literatura com a música serve para gerar e revelar perspectivas; para dar ao pensamento a experiência de entrar na realidade pelo portal do sensório-emocional e da imaginação; para enfrentar o desconhecido, seguro de si; para encontrar significações que levem à interpretação e reelaboração do mundo; e, acima de tudo, para que as crianças possam viver criativamente o seu tempo, que é o tempo da humanidade.

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